Entrevista com Henrique Kipper

Autor do livro “A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica”(2008, 126 pgs), Henrique Kipper estará presente na última mesa do Science’n’Fiction, representando a subcultura gótica ao lado do Conselho Steampunk, Jedi e de Cauê Nicolai. Além de escritor e professor, Kipper também é cartunista e organiza eventos de música gótica e darkwave mensalmente, como o Projeto Absinthe. No evento, o convidado irá falar sobre a noção de subcultura e como o gótico se repercute em vertentes da ficção científica, como o Steampunk (representado por Carlos Felippe) e o Cyberpunk (mesa anterior, composta pelos professores Adriana Amaral, Fábio Fernandes e Rodolfo Londero). Confira a entrevista:

Henrique, conte um pouco sobre a sua trajetória no estudo das subculturas. Esse seu interesse pelo gótico é uma preferência pessoal?
Minha ligação com a subcultura Gótica é uma identificação pessoal que começou há mais de 20 anos e, neste tempo todo, foi se aprofundando de acordo como fui gradativamente conhecendo mais sobre ela. Como toda paixão que depois se transforma em amor, a primeira identificação e atração é mais intuitiva. 🙂
Recomendo o livro The Subcultures Reader, editado por Ken Gelder, para quem quiser se aprofundar no assunto: traz um panorama da evolução do conceito de subcultura ao longo do século XX e no século XXI  que, hoje, transcendende o conflito e radicalismo entre a teoria crítica indústria cultural e o debate sobre a existência ou não da pós-modernidade. 🙂

O que você pensa da cobertura feita pela mídia quanto à representação das subculturas/tribos urbanas?
O que você acharia de uma reportagem que visasse mostrar a cultura chinesa (ou qualquer outra) e se limitasse a entrevistar meia dúzia de jovens chineses em um shopping em Shangai? 🙂 Não é errado, mas é tão informativo quanto definir o ser humano como “O ser Humano se define por ser um animal mamífero.” 🙂 Nossa imprensa é – em geral – fortemente ideologizada e refratária a qualquer informação diferente do que espera. Salvo raras excessões, a maior parte da mídia impressa ou televisiva apenas reproduz seus próprios preconceitos ou falta de conhecimento, mostrando-se ingênua (nos poucos casos bem intencionados) sobre as subculturas.

Explique um pouco sobre o conceito de subcultura, do seu ponto de vista. Pode nos dar algumas referências bibliográficas?
Defino subcultura de forma bem resumida neste capítulo do meu livro. Alguma bibliografia que recomendo, afora meu livro 🙂 :
– Paul Hodkinson. Goth: Identity, Style and Subcultura. (2002)
– Lauren M.E. and Michael Bibby. Goth: Undead Subculture. (2007)
– Antoine Durafour. La Milieu Gothique. (2005)
– Nancy Kilpatrick. The Goth Bible. (2004)
– Henrique A. Kipper. A Happy House in a Black Planet: Introdução à subcultura Gótica. (2008)

Por que algumas pessoas se sentem envergonhadas em se autodeclarar pertencentes a alguma subcultura (emo, gótico, punk, metaleiro)? Acha que dar a si mesmo um “rótulo” é necessário ou prejuízo?
A ideologia quase hegemônica de nossa época (no Ocidente industrializado) pressiona as pessoas a não se definirem socialmente e a mudarem periodicamente de acordo com os ditames do consumismo “de descarte”. Para o mercado, uma pessoa sem princípios pessoais é muito mais interssante, pois se curva a qualquer pressão social – na área do trabalho – ou modismo. Por isso, existe toda essa pressão ideológica para que as pessoas “não se definam”.
O contexto hoje é totalmente diverso da metade inicial do século XX.
Neste contexto atual, os rótulos são muito necessários como uma das formas de manter espaços de diversidade cultural em uma sociedade que sofre pressão por uma pasteurização e diluição global de visões de mundo diferentes. Assim, com a manutenção de espaços de diferença cultural -como as subculturas alternativas – as pessoas podem manter sua liberdade de escolha (e de pensamento) circulando entre ambientes com visões de mundo até radicalmente diferentes ou incompatíveis, mas igualmente possíveis: isto nos mantém humanos. 🙂

Você está atualmente trabalhando em algum projeto gráfico, algum quadrinho? Deixe uma ilustração sua que goste mais.
Hoje trabalho mais na área de educação (como professor), mas ainda trabalho profissionalmente com ilustração, para uma uma revista portuguesa. Fora isso ainda desenvolvo a série de humor Mondo Muerto e alguns outros trabalhos que vão crescendo no baú de anotações. 🙂

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3 respostas para Entrevista com Henrique Kipper

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  2. Roberto de Souza disse:

    Conhecer pessoas que conseguem equilibrar, de forma original e divertida, a emoção e a razão é sempre um privilégio. Kipper, mente nas estrelas e pés no chão…abração!!!

  3. Marcos Farias disse:

    Recentemente tive acesso a uma minissérie ilustrada por ele chamada Paranoia (Adventure Comics/Malibu Comics) e vi uma arte realmente impressionante, algo verdadeiramente digno de figurar entre os trabalhos de referência no meio da arte sequencial na década. É bom saber que ele ainda lida eventualmente com ilustração, embora seu estilo em trabalhos mais recentes seja bem diverso do que vi em Paranoia.

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