Entrada franca

Só para garantir, porque pelo jeito há pessoas com dúvida: o evento é GRATUITO. Não precisa pagar entrada, só é necessário se inscrever mandando um e-mail para eventos@casperlibero.edu.br com seu nome completo, RG, telefone e instituição que representa (se for de alguma universidade/faculdade ou meio de comunicação). Sendo assim, todos podem participar, não apenas alunos da Cásper Líbero.

Mais dúvidas, deixem comentários ou mandem um tweet para @sciencenfiction

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Desfile Steampunk

A loja Fetishe Furrys, localizada na Rua Augusta, participará do Science’n’Fiction levando modelos vestidas com as criações da estilista Lili Angelika. O desfile acontecerá durante a mesa sobre movimentos culturais, em que o Conselho Steampunk estará representado pelo artista plástico Karl Felippe. Confira algumas roupas:

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Singularidades brasileiras da ficção cyberpunk contemporânea

O prof. Rodolfo Londero nos deixou o artigo que apresentará durante o seminário, no qual trata sobre duas recentes obras brasileiras de literatura cyberpunk, ambas publicadas pela Tarja Editorial – que ja confirmou presença no Science’n’Fiction. “Os Dias da Peste“, de Fábio Fernandes (que estará na mesma mesa de Londero), e “Cyber Brasiliana“, de Richard Diegues (editor da Tarja Editorial) são os livros analisados por Londero no artigo “Singularidades brasileiras da ficção científica cyberpunk contemporânea”.Londero também recomenda “The Singularity is Here“, de Steven Shaviro.

Singularidades brasileiras da ficção cyberpunk contemporânea1

Rodolfo Rorato Londero (UFSM/Unicentro)

A ficção cyberpunk se estabelece como tendência na ficção científica brasileira durante as duas últimas décadas do século anterior, período que se convencionou chamar de Segunda Onda, principalmente através de autores como Fausto Fawcett e Guilherme Kujawski que, na primeira metade dos anos 1990, ganharam notoriedade nas páginas de jornais e revistas ao publicarem, respectivamente, Santa Clara Poltergeist (1991) e Piritas siderais (1994) (FERNANDES, 2007, p. 74). As referências tanto de Fawcett quanto de Kujawski não são os romances de William Gibson e Bruce Sterling, ou seja, dos autores inaugurais do movimento cyberpunk dos anos 1980, apesar de que ambos foram publicados no Brasil no início dos anos 1990, mas sim obras precursoras da ficção cyberpunk – principalmente cinematográficas, como, por exemplo, Blade Runner (1982) e Videodrome (1982) – ou mesmo o zeitgest econômico e cultural do final do século XX (neoliberalismo e pós-modernismo, respectivamente). Neste sentido, enquanto a Segunda Onda realizou recepções indiretas e análogas da ficção cyberpunk, os escritores que produzem atualmente estabelecem recepções diretas2. É o caso de Fábio Fernandes que, além de pesquisador da ficção cyberpunk em A construção do imaginário cyber (2006), é o autor de Os dias da peste (2009), romance que apresenta vários elementos da ficção cyberpunk (vírus, ciberespaço, gadgets, implantes, inteligências artificiais, etc.), mas que também vai além dela para encontrar um dos seus muitos derivados: a pós-singularidade. Shaviro, que identifica proximidades entre a pós-singularidade e o cyberpunk (SHAVIRO, 2009, p. 108), define o primeiro a partir do seu exemplo mais conhecido:

      • Accelerando (2005), de Charles Stross, é um romance sobre pós-singularidade, o exemplo mais conhecido de um pequeno, mas crescente subgênero da ficção científica. A ficção científica sobre pós-singularidade tenta imaginar, trabalhando em cima das conseqüências, o que os tecno-futuristas têm chamado de Singularidade. Isto é, o suposto – e estritamente falando, inimaginável – momento quando a raça humana atravessa um portal tecnológico e definitivamente se torna pós-humana. De acordo com este cenário, o crescimento exponencial no mais puro poder dos computadores, juntamente com avanços nas tecnologias de inteligência artificial, nanomáquinas e manipulação genética, mudarão completamente a natureza de quem e o que somos3 (SHAVIRO, 2009, p. 103).

Entretanto, ao contrário de Accelerando, Os dias da peste é pré-singularidade, ou melhor, pré-convergência entre homens e inteligências construídas (como as inteligências artificiais se denominam no romance). Ou seja, o narrador-protagonista Artur Mattos, através de relatos escritos em diários e postados em blogs e podcasts, testemunha os eventos que antecedem à Convergência, fenômeno vagamente descrito ao longo do romance, mas que parece remeter à definição de Singularidade. Uma característica estilística do narrador-protagonista, capaz de fornecer metáforas da Convergência, é a intertextualidade recorrente, levando seu amigo a dizer que “o que estraga o mundo é o excesso de referências” (FERNANDES, 2009, p. 164). Em todo o caso, é este excesso de referências que permite, por exemplo, arriscar uma resposta para o seguinte enigma em forma de haikai:

      • como puxar a tomada
      • quando o sistema é wireless?
      • coração inquieto (FERNANDES, 2009, p. 92).

Em outro momento (FERNANDES, 2009, p. 33), por meio de um colega professor, Artur conhece Distúrbio Eletrônico (1997), obra inclassificável do coletivo Critical Art Ensemble, mistura de ensaio político e “poesia plagiária”, que apresenta o conceito de “poder nômade”. O modelo deste poder são os citas, tribo descrita por Herótodo como invencível graças ao nomadismo: “Sem cidades ou territórios fixos, aquela ‘horda migratória’ nunca podia na verdade ser localizada. Conseqüentemente, nunca podiam ser postos na defensiva e conquistados. Mantinham sua autonomia por meio do movimento” (CRITICAL ART ENSEMBLE, 2001, p. 23-24). Entretanto, o que interessa é a reinvenção deste “modelo arcaico de distribuição do poder e estratégia predatória” pelo “capitalismo tardio”, baseado na “abertura tecnológica do ciberespaço” (CRITICAL ART ENSEMBLE, 2001, p. 24). Ou seja, através do ciberespaço, o capitalismo tardio não se fixa em instituições reconhecíveis, dificultando qualquer forma de subvertê-lo, pois “para saber o que subverter seria preciso que as forças de opressão fossem estáveis e pudessem ser identificadas e separadas” (CRITICAL ART ENSEMBLE, 2001, p. 22). O capital não se encontra nas mercadorias ou nas empresas, mas flutua livremente nos sistemas financeiros informatizados. Para retornar ao enigma, portanto, como sabotar o sistema quando ele está em toda parte e, portanto, em nenhuma parte? É neste sentido que “a Singularidade é realmente uma fantasia do capital financeiro”4 (SHAVIRO, 2009, p. 115), mas também no sentido que a Singularidade, definida em Os dias da peste simplesmente como “uma troca” (FERNANDES, 2009, p. 181) entre homens e máquinas, é a metáfora do valor de troca exponencial próprio do capital financeiro, pois se o capital em si é abstração/equivalência dos valores de uso, então o capital financeiro é abstração da abstração (SHAVIRO, 2009, p. 113). A Singularidade, enquanto metáfora do capital financeiro, é a troca absoluta que surge quando inexistem distinções de qualquer tipo, quando nada mais se define por suas qualidades inerentes: se todos podem abolir a “orientação espacial standard, ou padrão, do corpo humano dito tradicional” (FERNANDES, 2009, p. 9), então o que define cada um? Para Ray Kurzwiel, guru da Singularidade, “não haverá nenhuma distinção, após a Singularidade, entre homem e máquina ou entre a realidade física e a virtual”5 (KURZWEIL apud SHAVIRO, 2009, p. 104). Não se troca isto por aquilo, pois nada se diferencia: apenas se troca.

A metáfora meticulosa do capitalismo tardio proposta em Os dias da peste não resulta numa representação distópica do futuro próximo, como ocorre na ficção cyberpunk em geral: ao contrário, Os dias da peste, tal qual Accelerando (SHAVIRO, 2009, p. 109), é tecno-utópico, ainda que Artur, sempre desconfiado, demore a perceber os benefícios da Convergência. Na verdade, para Shaviro, extrapolações como a Singularidade demonstram que “o capitalismo em si é, hoje, diretamente e imediatamente utópico: e isto é, talvez, a coisa mais aterrorizante a respeito dele”6 (SHAVIRO, 2009, p. 115). Aterrorizante, pois a utopia, enquanto não-lugar, é o lugar do outro, e não o lugar do mesmo. Neste sentido, a Singularidade abole inclusive as distinções entre o outro e o mesmo, possibilitando que o capitalismo seja tautologicamente trocado pelo capitalismo. Em todo o caso, utópico ou não, a ficção cyberpunk, e também seus derivados, é “a expressão literária suprema, se não do pós-modernismo, então do próprio capitalismo tardio” (JAMESON, 2006, p. 414; grifo do autor). Mas como imaginar a ficção cyberpunk nos países do chamado Terceiro Mundo, ou seja, nos lugares que estão “ao mesmo tempo dentro e fora do sistema multinacional” (GAZOLLA, 1994, p. 15)? O cenário de afluência econômica, militar e tecnológica formado pelos países do eixo-sul que Richard Diegues propõe em Cyber Brasiliana (2010) somente é possível devido aos setores primários destes países que estão fora do capitalismo financeiro mundial (com exceção da Austrália): através do embargo de alimentos imposto pela República da União Brasiliana (DIEGUES, 2010, p. 102) e da substituição do lastro monetário por pedras preciosas promovido pela Africanísia (DIEGUES, 2010, p. 33), os países do eixo-norte entram em decadência, sendo suas terras e riquezas espoliadas por corporações multinacionais. É como se a recorrente distopia neoliberal imaginada pela ficção cyberpunk, de empresas governando o mundo, se limitasse aos países do hemisfério norte, enquanto a presença e a intervenção estatal fosse o outro lado da moeda, do outro lado do hemisfério. O outro então está presente em Cyber Brasiliana, mas também não é necessariamente utópico (no sentido lato do termo): no programa de dois pais, propagandeado pela República Brasiliana, “a idéia era ampliar a segurança e dar uma maior instrução para os jovens, criando homens aptos a defesa da soberania” (DIEGUES, 2010, p. 133). Percebe-se aqui uma (anti-)utopia espartana justificada por uma retórica nacionalista.

Existem utopias radicais em Cyber Brasiliana, mas, ao invés de se realizarem na economia e na política, elas se dão na ecologia e no ciberespaço. Aliás, enquanto a primeira abre o romance, a última o fecha. A ausência de poluição em São Paulo é o primeiro indício de afluência nos países do eixo-sul:

      • Em 2106, quando tinha oito anos, ainda havia dias em que a poluição em São Paulo atingia níveis absurdos – alcançava até noventa por cento nos picos, como ainda ocorria em muitos subpaíses do Conclave América-Oldeuropean. Com as pessoas passando grande parte do tempo plugadas em suas casas, o pulso de aço das ONGs e as leis – imposições de merda! – ambientais, a poluição era algo irrisório. Carros, praticamente apenas os de entrega e dos trabalhadores braçais (DIEGUES, 2010, p. 11).

Um dos motivos desta redução drástica da poluição, como se percebe, são “as pessoas passando grande parte do tempo plugadas em suas casas”: em Cyber Brasiliana, o ciberespaço se chama Hipermundo, um ambiente de realidade virtual compartilhado por usuários da rede mundial de computadores. Ainda que Diegues (2010, p. 249) não o cite entre os escritores de ficção científica que o inspiraram, o seu Hipermundo se assemelha ao Metaverso proposto por Neal Stephenson em Snow Crash (1992), principalmente na comercialização de espaços e publicidade – comparar, por exemplo, Diegues (2010, p. 19) e Stephenson (2008, p. 29) –, o que reforça a hipótese de recepção direta. Entretanto, após as corporações do eixo-norte fracassarem em seu plano de dominar o Hipermundo, este é totalmente reconfigurado, permanecendo por um momento sem leis: “O som de tumultos começava a eclodir em todos os cantos. A anarquia começava a imperar. E trazia junto o caos. Ela sabia que não restaram Desenvolvedores para consertar as coisas. Para recolocar tudo nos eixos” (DIEGUES, 2010, p. 243). Isto dura até os usuários descobrirem que “suas contas bancárias e documentos de posse estavam em ordem, suspirando ao ver que o Virtual HM Bank e o Geo-4-ce estavam firmes e fortes” (DIEGUES, 2010, p. 245). O imaginário anárquico da terra sem leis, representando pelos cowboys do ciberespaço nos anos inicias do movimento cyberpunk, é prontamente descartado a favor das leis comerciais que invadiram a Internet nos anos 1990: neste sentido, e não no indicado por Barber (2010, p. 7) no prefácio do romance, Cyber Brasiliana é literalmente pós-cyberpunk, ou seja, após a morte do gênero, como decretada por Arthur e Marilouise Kroker em “Johnny Mnemonic: o dia em que o cyberpunk morreu” (1995):

      • Johnny Mnemonic, o filme, é o dia em que o cyberpunk morreu. (…) Assassinado pela mera aceleração cultural, pelo fato de que a metáfora cyberpunk dos anos 80 realmente não funciona nos virtuais anos 90, o fracasso popular de Johnny Mnemonic atesta o fim da fase carismática da realidade digital e o começo da lei de ferro da estandardização tecnológica7 (KROKER; KROKER apud MORENO, 2003, p. 69).

É o que também atesta o final de Cyber Brasiliana, assassinando o espírito anárquico do cyberpunk por uma segunda vez, quinze anos depois. Se ainda existe algo dele no romance, é apenas como nostalgia: “Os ideais se foram. Era um saudosista do tempo em que todos conheciam codificação. Agora só restavam perdedores. Malditos usuários” (DIEGUES, 2010, p. 164). Quando todos conheciam codificação, todos criavam suas regras no ciberespaço, ao contrário dos usuários que devem seguir regras estabelecidas por outros. Após a “revolução” que ocorre no Hipermundo, quem passa a estabelecer as regras é o protagonista Kamal (codinome Pistoleiro), afirmando que, “por detrás dessas mudanças, haverá controle” (DIEGUES, 2010, p. 246). Não surpreende, diante do já exposto, que Kamal ganhe poderes extraordinários sobre o Hipermundo após uma experiência de Singularidade que somente se esclarece nas últimas linhas:

      • – Você é um deus? – perguntou o avatar de um garoto, mais próximo dele. – Veio substituir os anteriores?
      • (…)
      • – Garoto, sinceramente, prefiro que me chamem por Pistoleiro.
      • Kamal sorriu, provando que ainda era humano.
      • Em parte (DIEGUES, 2010, p. 247).

Mais que provar que ainda é humano, o sorriso de Kamal é a ironia diante das mudanças aparentes, do milenarismo tecnológico que subsiste no discurso da Singularidade, que “é precisamente nos trazer a utopia sem incorrer na inconveniência de questionar nossos contextos social e econômico atuais”8 (SHAVIRO, 2009, p. 106).

Referências bibliográficas

BARBER, Heraldo Assis. Prefácio. In: DIEGUES, Richard. Cyber Brasiliana. São Paulo: Draco, 2010.

CRITICAL ART ENSEMBLE. Distúrbio eletrônico. Trad. Leila de Souza Mendes. São Paulo: Conrad, 2001.

DIEGUES, Richard. Cyber Brasiliana. São Paulo: Draco, 2010.

GAZOLLA, Ana Lúcia Almeida. Fredric Jameson: uma epistemologia ativista. In: JAMESON, Fredric. Espaço e imagem: teorias do pós-moderno e outros ensaios. Trad. Ana Lúcia Almeida Gazolla. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1994.

FERNANDES, Fábio. Para ver os homens invisíveis: a Intempol e sua influência na literatura de ficção científica brasileira. In: NOLASCO, Edgar Cézar; LONDERO, Rodolfo Rorato (orgs.). Volta ao mundo da ficção científica. Campo Grande: Ed. UFMS, 2007.

_____. Os dias da peste. São Paulo: Tarja Editorial, 2009.

JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 2006.

LONDERO, Rodolfo Rorato. Níveis de recepção da ficção cyberpunk no Brasil: um estudo de casos exemplares. In: NOLASCO, Edgar Cézar; LONDERO, Rodolfo Rorato (orgs.). Volta ao mundo da ficção científica. Campo Grande: Ed. UFMS, 2007.

MORENO, Horacio. Cyberpunk: mas allá de Matrix. Barcelona: Círculo Latino, 2003.

SHAVIRO, Steven. The Singularity is Here. In: BLOUD, Mark; MIÉVILLE, China (orgs.). Red planets: marxism and science fiction. Middletown: Wesleyan University Press, 2009.

STEPHENSON, Neal. Nevasca. Trad. Fábio Fernandes. São Paulo: Aleph, 2008.

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Entrevista com Henrique Kipper

Autor do livro “A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica”(2008, 126 pgs), Henrique Kipper estará presente na última mesa do Science’n’Fiction, representando a subcultura gótica ao lado do Conselho Steampunk, Jedi e de Cauê Nicolai. Além de escritor e professor, Kipper também é cartunista e organiza eventos de música gótica e darkwave mensalmente, como o Projeto Absinthe. No evento, o convidado irá falar sobre a noção de subcultura e como o gótico se repercute em vertentes da ficção científica, como o Steampunk (representado por Carlos Felippe) e o Cyberpunk (mesa anterior, composta pelos professores Adriana Amaral, Fábio Fernandes e Rodolfo Londero). Confira a entrevista:

Henrique, conte um pouco sobre a sua trajetória no estudo das subculturas. Esse seu interesse pelo gótico é uma preferência pessoal?
Minha ligação com a subcultura Gótica é uma identificação pessoal que começou há mais de 20 anos e, neste tempo todo, foi se aprofundando de acordo como fui gradativamente conhecendo mais sobre ela. Como toda paixão que depois se transforma em amor, a primeira identificação e atração é mais intuitiva. 🙂
Recomendo o livro The Subcultures Reader, editado por Ken Gelder, para quem quiser se aprofundar no assunto: traz um panorama da evolução do conceito de subcultura ao longo do século XX e no século XXI  que, hoje, transcendende o conflito e radicalismo entre a teoria crítica indústria cultural e o debate sobre a existência ou não da pós-modernidade. 🙂

O que você pensa da cobertura feita pela mídia quanto à representação das subculturas/tribos urbanas?
O que você acharia de uma reportagem que visasse mostrar a cultura chinesa (ou qualquer outra) e se limitasse a entrevistar meia dúzia de jovens chineses em um shopping em Shangai? 🙂 Não é errado, mas é tão informativo quanto definir o ser humano como “O ser Humano se define por ser um animal mamífero.” 🙂 Nossa imprensa é – em geral – fortemente ideologizada e refratária a qualquer informação diferente do que espera. Salvo raras excessões, a maior parte da mídia impressa ou televisiva apenas reproduz seus próprios preconceitos ou falta de conhecimento, mostrando-se ingênua (nos poucos casos bem intencionados) sobre as subculturas.

Explique um pouco sobre o conceito de subcultura, do seu ponto de vista. Pode nos dar algumas referências bibliográficas?
Defino subcultura de forma bem resumida neste capítulo do meu livro. Alguma bibliografia que recomendo, afora meu livro 🙂 :
– Paul Hodkinson. Goth: Identity, Style and Subcultura. (2002)
– Lauren M.E. and Michael Bibby. Goth: Undead Subculture. (2007)
– Antoine Durafour. La Milieu Gothique. (2005)
– Nancy Kilpatrick. The Goth Bible. (2004)
– Henrique A. Kipper. A Happy House in a Black Planet: Introdução à subcultura Gótica. (2008)

Por que algumas pessoas se sentem envergonhadas em se autodeclarar pertencentes a alguma subcultura (emo, gótico, punk, metaleiro)? Acha que dar a si mesmo um “rótulo” é necessário ou prejuízo?
A ideologia quase hegemônica de nossa época (no Ocidente industrializado) pressiona as pessoas a não se definirem socialmente e a mudarem periodicamente de acordo com os ditames do consumismo “de descarte”. Para o mercado, uma pessoa sem princípios pessoais é muito mais interssante, pois se curva a qualquer pressão social – na área do trabalho – ou modismo. Por isso, existe toda essa pressão ideológica para que as pessoas “não se definam”.
O contexto hoje é totalmente diverso da metade inicial do século XX.
Neste contexto atual, os rótulos são muito necessários como uma das formas de manter espaços de diversidade cultural em uma sociedade que sofre pressão por uma pasteurização e diluição global de visões de mundo diferentes. Assim, com a manutenção de espaços de diferença cultural -como as subculturas alternativas – as pessoas podem manter sua liberdade de escolha (e de pensamento) circulando entre ambientes com visões de mundo até radicalmente diferentes ou incompatíveis, mas igualmente possíveis: isto nos mantém humanos. 🙂

Você está atualmente trabalhando em algum projeto gráfico, algum quadrinho? Deixe uma ilustração sua que goste mais.
Hoje trabalho mais na área de educação (como professor), mas ainda trabalho profissionalmente com ilustração, para uma uma revista portuguesa. Fora isso ainda desenvolvo a série de humor Mondo Muerto e alguns outros trabalhos que vão crescendo no baú de anotações. 🙂

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Quem for pro evento, ganha abraço de robô! #hugbot

Jack Holmer trará para o Science’n’Fiction sua mais nova criação: o #hugbot!

Trata-se de um robô que será disponibilizado para ser abraçado pelos participantes do seminário. O #hugbot é um robô corporificado em um boneco de pano crú, com dois sensores de toque (que sente o abraço), um sensor de ultrasom (que calcula a distância de sua cabeça ao corpo de quem o abraça) e três servo-motores (dois em seus braços e um em sua cabeça)..

Memorial de performance

Pensar a lógica da vida é uma das forças motoras de toda ciência. Os seres vivos detêm algo que intriga a inteligência, fazendo-nos refletir. Viver não é só procriar, nem somente buscar alimento. O cego animalesco tende a enxergar o existir como apenas suprir desejos biológicos, ignorando fatos simples, como o afeto, a sociabilidade e a necessidade de criação artística, o espírito desbravador e inúmeros sentimentos e comportamentos que dobram a psicologia e a filosofia.

Quando a matemática se abstrai, a medicina releva questões do espírito; a sociologia depende do imaginário sonhado, o caos de algo emergente e incontrolável aparece. O homem (ser criado) toma a postura de criador, que através das tecnologias, tenta dominar a lógica da vida. E nesse ponto que a Arte apresenta seus trunfos, pois é especialista no sentir, no viver e no expressar. O erro, a margem e o caos não são vistos como negativos, mas como atores de um sistema emergente.

O #hugrobot é um robô criado para corresponder a abraços. Na performance aqui referida o robô será disponibilizado para que os congressistas possam abraçá-lo e assim criar ou efetivar um vinculo afetivo com a máquina. O Robô tem 60cm x 70 cm x 15 cm, é composto de tecido, sensores, luzes internas (que esquentam o corpo) e partes eletrônicas.

Esta performance já foi feita no Museu Oscar Niemeyer ( Curadoria de Fernando Bini), no “Fórum Internacional de Conservação do Moderno ao Contemporâneo – A Memória do Futuro: Um primeiro olhar sobre a realidade nacional”, realizado nos dias, 22, 23 e 24 de setembro de 2010.

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Entrevista com Karl Felippe

Representante e co-fundador do Conselho Steampunk, o paulista Carlos Felipe fala um pouco sobre o grupo e sobre o gênero literário que os aproxima.

Como foi criado o Conselho Steampunk? Além de você, quem mais o criou?
Os criadores do Conselho Steampunk foram o Bruno Accioly e o Raul Cândido Ruiz.  Ele (Cândido) foi quem entrou em contato com o Bruno em meados de 2008, quando teve a ideia de fazer um blog sobre steampunk e descobriu que o Bruno mantinha um site voltado para o assunto. Os dois decidiram formar o grupo. Eu só estava lá o inicio de tudo, digamos.

Como funciona a Loja São Paulo? Há hierarquias, reuniões, sede ou ela existe apenas em domínio virtual?
A Loja São Paulo não tem uma sede física ou uma hierarquia estabelecida. A própria divisão em núcleos, ou “lojas”, serve exatamente para facilitar o andamento das atividades do Conselho, para que se tenha mais autonomia. Existe apenas uma distribuição de tarefas quanto à atualização do site ou quando precisamos de um porta voz. Normalmente a parte  “social” fica nas mãos do Raul, mesmo porque ele tem mais jeito com as pessoas.

Por que você acha que o Steampunk deu tão certo no Brasil?
Ressonância morfogenética (risos). Certo, falando sério: acho que o motivo foi simplesmente timming. Fora do Brasil, a “cena” steampunk, por assim dizer, já estava crescendo exponencialmente (a chamada segunda onda steampunk), mas agora não apenas nos livros, mas também como subcultura, se espalhando para outras formas de arte –  pintura, escultura, modelagem, moda, constumização, musica e assim por diante. Era natural que algo assim chegasse aqui, calhou apenas de não ser com um atraso muito grande.
Talvez a identificação com o steampunk deva-se ao fato de que, aqui no Brasil, não houve uma grande explosão tecnológica no século XIX, como em outro países, mas houve uma grande produção cultural (literária). Isso pode-se perceber na ênfase dada às obras produzidas aqui e, mesmo na vitalidade diferente das histórias steampunk produzidas no Brasil, que costumam se desviar um pouco do otimismo “a ciência nos salvará!” de outras histórias, assumindo uma postura mais para “a ciência nos salvará?” de um modo bem parecido com as primeiras histórias steampunk escritas no início dos anos 1980.

Quantas pessoas fazem parte do movimento, ativamente, em São Paulo?
Em São Paulo, ativamente, não é um número muito grande. Suponho cerca de 20 ou 30 pessoas (mesmo que a comunidade da Loja conte com mais de 300 membros). Mas existe muito apoio mútuo entre as lojas no campo virtual e, quando possível, no físico também.

Quais são seus autores de referência?
Poderia citar James Blaylock, K. W. Jeter e Michael Moorcock porque li mais de dois livros de cada um que se encaixassem no gênero. E alguns livros que valem a pena mencionar são The Difference Engine, do William Gibson e do Bruce Sterling, Anti-Ice do Stephen Baxter, a antologia Extraordinary Engines de Nick Gevers, bem como a antologia Steampunk de Jeff e Ann Vardermeer. Mainspring do Jay Lake (que não é exatamente steampunk, mas dane-se), os dois primeiros volumes da Liga Extraordinária do Alan Moore, e mais recentes como o Boneshaker, da Cherie Priest, Leviathan do Scott Westerfield, Clockwork Heart da Dru Pagliassotti,  Whitechapel Gods do S.M. Peters, e bem, temos duas antologias nacionais no gênero que são realmente muito boas: uma da editora Tarja e outra da Draco.

Carlos Eduardo Pereira Felippe
Artista plástico, editor do site da Loja São Paulo do Conselho Steampunk, colunista do site OutraCoisa.com.br, um dos membros-fundadores do Conselho Steampunk.

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Sobre singularidade, transhumanos e pós-humanos

Fabius Leineweber, que estará presente na mesa “Pós-humanos, cibercultura e robótica” deixa uma dica de artigo e vídeo para os interessados em conceitos de pós-humanismo e pós-modernidade. Para quem não entendeu direito qual é a idéia, dá uma olhada nesse “glossário” feito por Andrew Zolli, da Wired:

Know Your Transhumanists

“If the future can’t be now, it should be as soon as possible.” That’s the creed of transhumanists, a growing geek subculture that can hardly wait for the first major academic confab about its beliefs to unfold at Stanford later this year. Also anticipated: Ray Kurzweil’s next book, The Singularity Is Near. But not all transhumanists think alike. Here’s a field guide to the two major types.

James Chiang The Extropian (Transhumanis aeternis)

The Extropian
(Transhumanus aeternis)

Wants to live forever in a free-market, libertarian paradise, his psyche augmented by the best technology and drugs.

Currently reading
BioMEMS: Fundamentals of Implant Microfabrication

Most recent meal
Day 9 of calorie-restricted diet: 20 grams of protein, 1 gram of carbohydrates, 600 ml of water.

Last sexual encounter
On DMA at the Extro-5 conference.

Favorite tattoo
SPINAL IMPANT GOES HERE.

Saved on his iPod
Local copy of his own genetic code.

Stored in his basement
Complete set of Reason magazine and Mondo 2000 back issues.

Biggest fears
Death, taxes.

James Chiang The Singularitarian (Transhumanis transcendens)

The Singularitarian
(Transhumanus transcendens)

Believes people will soon merge with computers and become an immortal new life-form – a “singular” event in human history.

Currently reading
Collected Stories of Vernor Vinge and The Cyborg Handbook

Most recent meal
Whatever is in the lab vending machine.

Last sexual encounter
In a Doom mod in 1996.

Favorite tattoo
EVERYBODY LOVES RAYMOND (KURZWEIL).

Saved on his iPod
Algorithms – lots of algorithms.

Stored in his basement
Self-evolving AI network running on 42 linked PCs.

Biggest fears
Direct sunlight, women.

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